Eu não tenho as mesmas lembranças que ela, que minha mãe... Tampouco a mesma dor. Mas sim, eu me sinto triste. Sinto que se foi mais um pedacinho de mim. Lembro da minha infância, e hoje muitas pessoas dela estão partindo. Ontem, especialmente, mais uma pessoa partiu e a dor ficou. Ajuda-la fazer a passagem é essencial, mas a dor castiga e as vezes a gente se questiona. Sei que estou em melhor posição em relação a dor, melhor posição para dizer "calma mainha... ela esta bem agora.", mas não tenho certeza, tenho? Tenho fé, e isso basta. Ela esta SIM em um lugar melhor. Sofrimento e dor podem não ter passado, porque muitos de nós ainda estamos presos a ela, mas sei que ela fará a passagem e ficará bem, em paz.
Lembro-me de um dia em que vó me levou para a casa dela, ficava na rua de cima, virando a esquerda. Uma casa bonita, na subida da ladeira, verde e com algumas poucas trepadeiras no muro. Eu, com não mais que 8 anos, sabia o nome da planta, mas tinha vergonha de dizer... E conhecendo-a como eu conhecia, fazendo jus ao nome, me astrevi a perguntar a ela o nome da planta, já sabendo que a resposta ia ser grossa e debochada.
- Tia, qual o nome dessa planta?
- Ah menina! É a "fazedeira"......
- Fazedeira????
- A "coisadeira"!!!!!....
- Coisadeira?????
- TREPADEIRA!!! TRE-PA-DEI-RA!!!
E rimos até não dar mais, com muita bolacha de água e sal e goiabada que ela insistia que eu precisava comer porque estava "abatida", de onde ela tirava isso, não sei...
Vó me levou na sua casa várias vezes. Tenho orgulho de ter conhecido a tia que mainha tanto falava e nunca soube sua verdadeira história. Acho que no começo, eu era nova demais pra perguntar. E depois, velha demais pra querer saber. E nessa, ela se foi e eu nunca soube. Pra mim, sempre foi minha tia, dona da casa onde eu podia ir pra brincar e ver Jotinha com suas galinhas.
Hoje me sinto muito triste, mas peço a Deus que a ajude a passar pra um lugar bom e calmo, como ela merece. Que olhe todos nós aqui em baixo, com aquele queixo erguido e aquela força que só ela tinha.
Sinto mais pesar ainda por ela não ter conhecido "a filha de Momocinha", ela teria orgulho de Maysa, como tinha de mim. Ela sempre teve orgulho de mim. Sempre teve orgulho de Momoça e Momocinha. Sempre.
Pra sempre com a senhora, tia Lunga.